sábado, 21 de janeiro de 2017

silêncio

Já ouvi muita crítica nestes 36 anos de vida porque não sou muito "evidente". Isto é, não me exponho muito perante os outros. Tenho colegas do trabalho a querer se sou solteiro ou casado, se sou hetero ou gay. Tenho conhecidos que acham que têm o direito de saber muita coisa sobre mim, e quando fecho essa porta deixam-me de falar. 

Ainda me recordo bem de uma pessoa, que em 2015 me mandou uma mensagem a dizer "assume que namoras com ele, assume, quero que o assumas" e que quando lhe disse que ele não tinha nada a ver com isso, ressabiado, deixou-me de falar. Como devem estar cientes, desde esse dia que não durmo. NOT

E quem fala de relacionamentos, fala por exemplo de uma coisa tão simples como colocar o sítio onde trabalho no Facebook. "Tens vergonha de dizer onde trabalhas? É isso?" - perguntava-me há dias um colega meu. Não, não tenho vergonha, mas não vejo a necessidade de ter isso num perfil de uma rede social que não é profissional. Além disso, sofro do "síndrome de aldeão". 

E o que é o "síndrome de aldeão"? Basicamente é aquela sensação de estarmos sobre a berlinda de alguém. Quem morou numa aldeia saberá do que falo. 

Eu morei numa aldeia, onde praticamente nasci, e pertencia a uma das famílias mais numerosas e conhecidas. Desde miúdo que estava habituado a toda a gente soubesse coisas sobre mim. As minhas notas, se estudava ou se me baldava, com quem estava ou deixar de estar, onde tinha passado a seguir à escola, se ia ao café, se comprava um bolo ou uns cromos para a caderneta, se faltava à catequese ou se não convidava não-sei-quem para o meu aniversário. Se em criança a "coisa" até se leva na desportiva, quando se é adolescente a "coisa" já não é tão agradável. Sentir todos os passos monitorizados é horrível, e sentir que não se tem liberdade, para nem sequer ter os pés em cima de um banco do jardim é muito castrador. Sim, por volta dos meus 16 anos, estava com o meu grupo de amigos da aldeia à conversa na rua, numa sexta-feira à noite, e sentei-me nas costas de um banco do jardim com os pés no assento. No dia seguinte já os meus pais sabiam e tinham um sermão preparado - como se naquela noite eu fosse o único naqueles preparos. Mas isso nem me deixou chocado verdadeiramente. Pior foi quando falavam que eu tinha "tido relações sexuais com aquela" ou que de "certeza que era gay". Chegou a um ponto que fiquei paranóico. Quando via alguém aos cochichos pensava logo que estavam a falar sobre mim e portanto comecei a fechar-me. Comecei a não contar muito sobre a minha vida ou sobre mim. Aliás, o que queria mesmo era ser invisível.

Com a ida para a faculdade algumas coisas mudaram, mas o falatório sobre a minha pessoa ainda existia. Ou era o curso, ou eram as notas, ou era o raio que os partisse. Viver num ambiente de aldeia é muito complicado e para quem não gosta de se expor não é o mais indicado. Eu comecei a ter aversão disso tudo e comecei a amputar informação, até porque, parece que quanto mais as pessoas sabem mais invejam e não acreditando eu em bruxas, sigo o lema espanhol "mas que elas existem, existem"

No outro dia, enquanto deambulava pelo instagram vi algo que me deixou a pensar. Dizia a publicação "Se queres ser feliz, não contes nada a ninguém" e retive aquela frase feita, como quem guarda um livro que o marcou. Será que para sermos verdadeiramente felizes, teremos que viver em silêncio?

Créditos: Namoro com um Pop Star

6 comentários:

  1. As pessoas vivem intrometendo na vida alheia...

    Me vi neste post, embora não conhecia esta síndrome de Aldeão...

    Já vivi encanado ao ponto de achar que estão falando de mim...
    Não tenho redes sociais porque não gosto de expor minha vida, ostentar meus passeios (redes sociais é mais para ostentação).
    Não gosto de expor meu namoro, minha sexualidade, meu trabalho, e blá blá blá...
    Gosto de privacidade, sou reservado.

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    1. Ro, efectivamente este tipo de comportamento poderá ter um nome, mas inventei o "síndrome de aldeão" só para demonstrar as minhas atitudes.

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  2. Cada um com sua história e com seu modo de ser.
    Eu me abri para o mundo começando por família, depois amigos, colegas de trampo e de faculdade ... não tive problemas e acabei com a minha neura que era a de ser descoberto um dia ... vi então que todos já sabiam ... rs

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    1. Mas sem ser isso Paulo? Fala abertamente do trabalho, do dinheiro que tem no banco, dos objectivos que quer alcançar na vida? Isso não gera inveja? Mau olhado?

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  3. Cada um é livre de guardar para si o que acredita dever guardar. Mas vivemos num mundo de 8/80 em que as pessoas ou não querem nada ou querem tudo.
    E, não sendo eu próprio uma pessoa de extremos, sempre me fizeram espécie aquelas pessoas cujas coisas toda a gente sabe mas que não dizem por que, pronto, não convém.
    É um direito que assiste a todos, mas é como tapar o sol com a peneira, passa sempre o suficiente para nos apercebermos da existência dele. Assim como passamos o suficiente das nossas vidas para muitas pessoas tirarem as suas conclusões, conclusões essas muitas vezes acertadas.

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    1. Eu prefiro que as pessoas não saibam onde trabalho. Manias. lol

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Este blogue não é uma democracia e eu sou um ditador'zinho... pelo que não garanto que o comentário seja publicado. Mas quem não arrisca...