Sempre fui muito possessivo. Mimado. Birrento. Não sou filho único, mas há quem diga que tenho muitas características dessa condição. Há quem diga que sempre recebi muito mimo, mas a verdade é que sempre recebi muita exigência. É verdade também que sou muito comichoso. A minha tesoura é a minha tesoura, a minha caneta é a minha caneta e o meu cabo do telemóvel é o cabo do MEU telemóvel e tenho alguma dificuldade em emprestar. Ou seja, até empresto, mas demoro a horas emprestar – simplesmente porque o objecto fica colado na minha mão – ou digo logo que preciso daquilo que empresto “daqui a 1 hora”. E o mesmo se passa com os meus colegas de trabalho, amigos, família ou namorado. A máxima é: tudo o que é meu deve ser evitado partilhar. Ou como diz a minha guru Rosinha: “na minha panela não entra qualquer colher”.
Por exemplo, quando um amigo meu traz um amigo dele para o nosso círculo de amigos (será que empreguei na mesma frase muitas vezes a palavra “amigo?” #dúvidaexistencial) fico logo de pé atrás. Esboço um sorriso amarelo e fico a pensar “mas o que está este grunho/a, a fazer aqui?”. Confesso que não sou uma pessoa fácil, e sei que passados uns tempos até posso adorar o facto de ter conhecido as pessoas em questão, mas até lá fico sempre aziado. O mesmo se passa com os meus colegas de trabalho quando trazem alguém “novo” para o nosso quotidiano. Fico logo a revirar os olhos, a encarnar a Regan MacNeil e a dizer asneiras interiormente. Sou uma pessoa de hábitos e resistente à mudança, embora goste de experimentar coisas novas e de conhecer sítios e pessoas diferentes. Confuso? Talvez. Talvez seja mesmo bipolar. Um bipolar que não gosta de partilhar.
Ainda bem que não nasci há dois milénios atrás e que não fui apóstolo. Tinha sido logo corrido antes mesmo de começar a exercer funções, embora se conseguisse transformar água em vinho seria uma coisa muito fixe.