terça-feira, 17 de outubro de 2017

incêndios em portugal

Ponderei se haveria de escrever sobre os incêndios de 2017 em Portugal ou não. Pensei se valia a pena estar a dar uma opinião sobre um assunto que todos têm uma opinião e são especialistas, e que todos são donos da razão. Matutei, hesitei, e concluí que devia apenas escrever alguns tópicos sobre o assunto, considerando o pouco que sei sobre Protecção Civil, e o pouco que se sabe sobre a tragédia, contada pelos escassos jornalistas fidedignos que temos. 


Então aqui vai:

  1. Cento e um mortos em incêndios num só ano deve levar a uma reflexão profunda do que se passou e deve levar ao apuramento de responsabilidades. Por mais catastróficos e incontroláveis que tenham sido todos os incêndios, cento e um mortos é um número que revela que algo está muito mal.
  2. A demissão da Ministra da Administração Interna não leva a nada. Não resolve nada. E sinceramente, e considerando os dados que disponho, muitas das decisões não passaram pela tutela, é por isso que temos Secretários de Estado e Directores de serviços. Contudo, é de admitir que a Ministra da Administração Interna politicamente está saturada. Não soube gerir a situação e não me parece que tenha sabido também mostrar quem manda – que era ela. Admito que a comunicação social portuguesa (nomeadamente a SIC, Correio da Manhã e Observador) também a veja como um alvo fácil a abater. Tem um aspecto frágil, é mulher e não é consensual. Depois de várias de vezes pressionada pela comunicação social sobre se demitia, acabou por dizer ao fim de “n” respostas que “seria mais fácil demitir-se e ir de férias que não teve” do que ficar a aguentar o barco. Na minha perspectiva, ela apenas fez um desabafo para salientar o facto que ela ficou. Que ela não virou as costas como muitos fizeram no passado, por ser mais “fácil”. Logo aí, acho a publicação do jornalista Bento Rodrigues desonesta e intelectualmente “pequenina”.  
  3. Na minha óptica, a ANPC (Autoridade Nacional de Protecção Civil) não funciona. Não funciona agora, como nunca funcionou. Esta área da protecção civil em Portugal vive de um amadorismo atroz e de pequenos egos que minam qualquer trabalho pro-activo ou reactivo. Ser militar não é sinónimo de legitimação técnica para trabalhar na Protecção Civil. Ser bombeiro também não. A Protecção Civil é mais do que isso. A Protecção Civil somos todos nós.
  4. Parece-me evidente que a reformulação da ANPC em Janeiro de 2017, que iria traduzir uma nova abordagem ao tema da Protecção Civil, falhou. E aqui, devem os responsáveis políticos assumir o erro e assumir também, que as escolhas humanas não foram as mais indicadas para os cargos que foram ocupar. E aqui, não há volta a dar. Há que assumir. Há que retirar quem não tem competência e procurar os melhores. De uma vez por todas, há que perceber que confiança política não é o mesmo que confiança técnica.  
  5. Também não compreendo, como se continua a aposta num sistema de comunicações chamado SIRESP, que todos já percebemos que não funciona. Aliás, pelo que soube, é um sistema que desde o início tinha tudo para correr mal. Pelos vistos correu.
  6. Depois todos nós temos que ser responsáveis e evitar comportamentos de risco. Refiro a título de exemplo, uma publicação de uma jornalista (que entretanto apagou a mesma) que em nome da informação escreveu que “tinha fitado a GNR” e conseguiu entrar em zonas que estavam proibidas e que por pouco não tinha sido apanhada pelo fogo. Queixou-se do ar irrespirável e que foi uma noite muito dura, tudo em nome da informação. Mas pergunto. E se a jornalista em causa tivesse sido apanhada pelo fogo? Se tivesse perecido nas chamas? A culpa também seria da Ministra da Administração Interna?
  7. Todos se queixam agora, que se acabou com a guarda florestal e que os bombeiros são os nossos heróis. Muitas dessas pessoas, são as mesmas que se queixam dos funcionários públicos, dos salários dos funcionários públicos e de inúmeras categorias que funcionários públicos que não servem para nada. Sabiam que a guarda florestal, a voltar, implicaria contratar mais funcionários públicos? Gastar mais dinheiro com funcionários públicos? E os bombeiros? A profissionalização dos mesmos? Sabiam que isso implicaria um gasto astronómico em salários se o Estado tivesse, pelo menos, uma corporação de bombeiros por cada Distrito? A mim, isso não me choca. Aliás até defendo, que o sistema de combate a incêndios deveria dispor de uma corporação de bombeiros por cada Distrito, paga pelo Estado, com bombeiros profissionais, funcionários públicos do Estado, conhecedores da zona de intervenção e devidamente estimulados para o serviço público. Afinal quantos de nós somos sócios dos Bombeiros Voluntários da nossa zona de residência?
  8. E a floresta? Temos a floresta que queremos ou merecemos? Não queremos gastar mais dinheiro em funcionários públicos, mas queremos um ordenamento eficaz? Queremos planeamento, mas não queremos gastar dinheiro em formar e contratar engenheiros florestais? Afinal, o que queremos? Queremos eucaliptos? Queremos os terrenos agrícolas abandonados e sem uso, onde o mato é rei e senhor?
  9. Todos aqueles que vivem em zonas rurais limpam o mato em redor as suas casas? As entidades gestoras das vias limpam as faixas de protecção previstas na Lei? Sim? É suficiente? As autarquias locais actuam conforme a Lei intimando os proprietários a limpar os terrenos que o necessitem? Não? Porque não?
  10. E o clima e as alterações climáticas são ou não uma invenção de alguns? Têm ou não influência nisto tudo? São fenómenos incontroláveis e que devemos aceitar como um castigo divino? Vamos deixar tudo na mão do “Senhor”?
  11. Cento e um mortos é o corolário de tudo isto. A culpa é de todos nós, e devemos exigir mudanças radicais de políticas, de comportamentos e de mentalidades. Ou então fazemos como a Pipoca Mais Doce, mandamos qualquer coisa para o caralho e fica tudo resolvido. 


2 comentários:

  1. O mundo de hoje é bem assim mesmo. Século XXI será configurado no futuro como a Idade Média II. #fato

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    1. Espero que estejas errado, Paulo. Não gostava nada de viver numa "Idade Média".

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