sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

monogamia e traições

 Li esta publicação no Instagram...

Fonte: www.instagram.com/psivitorlima_


...e fixei-me neste comentário que lhe foi deixado:


Será a monogamia, heterossexual?  



1| conceitos

A definição de traição é muito ampla. Mas para mim é até muito simples. Ou seja, é tudo aquilo que foge ao acordado, estipulado e definido entre as partes, aquando um relacionamento (seja ele amoroso, profissional, whatever). Se existem regras e convenções, antes que estas sejam quebradas, convém assumir, ou ter noção dos atos que se vão praticar. Se deliberadamente essa fronteira for ultrapassada, intencionalmente ou não, há que ter responsabilidade e ter presente essas consequências. Como em tudo, existe uma escala gradativa, e compete às partes envolvidas decidir sobre o caminho a seguir depois. 

Já a monogamia, num relacionamento afetivo, é o compromisso entre as partes interessadas de que não existe, ou não é necessário, ter outras pessoas externas envolvidas - na componente sexual, romântica, whatever. A monogamia hoje em dia, não se cinge em exclusivo a duas pessoas, devido à multiplicidade das relações existentes. Um trisal pode ser monogâmico, por exemplo. 


2 | motivos de traição 

Existem muitos motivos para uma pessoa trair outra. Até mesmo aqueles que são elencados na publicação, portanto, cada caso será um caso, e considero que deva ser analisado de uma forma individual, e não global. Ou seja, alguém que sai com amigos à noite, bebe uns copos a mais, e acaba aos beijos com um desconhecido, mas que acaba por assumir e responsabilizar-se pelos seus atos, na minha opinião, não pode ser comparado a alguém que todos os dias engata no Grindr, e vai a casa de várias pessoas durante a semana, porque tem "necessidades", mas que guarda segredo disso, porque não quer problemas com o parceiro. Além da origem, a diferença também está no que se faz depois. Na responsabilidade com que se resolve a questão. 

Portanto, sim, a traição, ou melhor, os seus motivos, podem ser distintos, mas isso não significa que são próprios dos relacionamentos LGBTI+, ou que a monogamia é exclusivamente um conceito heterossexual. E chamar de "não monogamia", uma traição, bommmmmmmmmmmmmmmmmmm, já vi desculpas mais elaboradas. Uma traição só se poderia inscrever nesse conceito, se as partes envolvidas estivessem cientes dessas possibilidades, mas se assim fosse, não seria uma traição, certo? 


3 | relacionamentos monogâmicos 

Eles existem e são uma realidade mesmo nos relacionamentos LGBTI+. Ninguém é obrigado a nada, e não existe uma convenção obrigatória para o efeito. Se a pessoa tem uma relação nestes moldes é porque concordou com ela, e sente-se bem nesse contexto. Caso contrário, ou parte para outra, ou assume o que pretende e é honesto. Caberá ao outro lado, aceitar e concordar, ou então, procurar a sua felicidade noutro lado. Seja como for, nada é unilateral, e ninguém pode ser criticado por querer um relacionamento monogâmico, porque os "gays não são monogâmicos". Não podemos ser todos "modernos", certo? 

Pessoalmente, continuo a acreditar em monogamia, embora reconheça que em relações longas, exista desgaste. E quando falamos entre dois homens, essa saturação é ainda mais vincada. O problema não é reconhecer isso, é sim, não falar sobre isso. E decidir as coisas de uma forma solitária, esperando que o outro lado nunca descubra, não é, e nunca foi, solução. Eu apesar de encontrar desejo noutros homens (uma pessoa não é cega) quando namorava, nunca senti a necessidade de ultrapassar essa fronteira. O que tinha era o bastante para mim, e sentia-me realizado com isso. Completava-me, tinha prazer, gostava e mais do que sexo, era mesmo amor. Assim, quando me dizem que uma traição "foi só sexo e não significa mais do que isso", o que pergunto é "mas todos sabem e concordam com esse conceito?", e quando a resposta é negativa, pois bem, então não foi só sexo, foi uma deslealdade para com quem se tem um relacionamento assumido e com quem se deveria ter tido o cuidado de não o/a colocar numa situação, no mínimo, "chata"

9 comentários:

  1. Evidentemente que há traição entre os heterossexuais, na mesma medida ou até mais do que nos homossexuais. Tenho tantos casos na família… Um dia escrevo sobre isso.

    Porém, eu nisso sou antiquado. Com desgaste ou sem desgaste, estar com outra pessoa enquanto se está numa relação, mesmo com o conhecimento / consentimento do outro, não me parece bem. Chamem-me velho do restelo, não quero saber. Para mim, tem de ser estável; tem de haver amor, amizade, confiança, companheirismo, entre ajuda, isso tudo. E respeito, muito.

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    1. São as tuas definições e conceitos, e está tudo bem, desde que seja igualmente válido para todas as partes envolvidas. O problema está, quando defendes uma coisa em público, e fazes outra em privado, e sem envolver nas tuas decisões as pessoas com quem estás. Como se fosse uma parte externa ou não interessada o assunto. Um relacionamento, na minha perspetiva, não é isso. É uma partilha constante, onde existe espaço também para os teus momentos e os teus dramas, mas onde isso nunca coloque em causa a outra pessoa. Psicologicamente, fisicamente, etc.

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  2. Creio que há traição, quando não tens o suficiente em casa. Quando os casamentos são por estatuto ou interesse?! O que esperar?! Quando a cama e a química são bons, é o suficiente. Uma boca é uma boca, uma pila é uma pila e um rabo é um rabo lololololololololol
    Quanto aos Tricasais, creio que é em caso de alguém sair, ficam sempre 2 em casa lolololololol
    Homens procuravam outras mulheres porque elas são muito castas, quem não se lembra da quantidade de homens que pediram o divórcio nos anos 90 com a chegada das Brasileiras. Quando chegas aos 50/60 sabes que o tempo que te resta já é menos para andares a aturar o império ou o estatuto
    Mera opinião minha

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    1. Eu próprio cometo o erro de "colar" traição com sexo, mas efetivamente uma traição não é sexo. Isto é, pode ser um sintoma, mas não é a causa. A causa é a falta de honestidade que existe da pessoa com ela própria, e depois, com as outras partes interessadas. É claro, que aliamos a maioria das traições à componente sexual, porque parece lógico, mas o que leva a pessoa a fazer isso, tem imensas origens, e quando falamos de traição, falamos de traição à confiança. A confiança é tudo, e a honestidade faz parte da confiança, até porque às vezes não é sobre não ter suficiente em casa, é não querer mais o que se tem, querer diferente ou até mesmo, não se saber o que quer, porque a pessoa não tem maturidade suficiente para decidir e ser honesta. Confuso? Basicamente é ser honesto.

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  3. Historicamente a monogamia é uma construção heterossexual e normativa. O casamento foi inventado para proteger património entre as famílias de grande capital e serviu como ferramenta de submissão da mulher. Não obstante os discursos não monogâmicos esquecem-se dois aspetos históricos essenciais a apropriação e a ressignificação.

    A monogamia não é heterossexual (em jeito de brincadeira digo que) é de quem a apanhar. è um modelo de relacionamento válido como qualquer outro, sejam as variantes de relação aberta, os trisais ou uma unidade poliamorosa.

    A traição não tem a ver com com monogamia, tem a ver com carácter. A traição acontece também em todos os outros tipos de relação afetiva. Há um foco demasiado grande no contacto físico, mas imagina que o teu parceiro nunca beijou ou esteve com outra pessoa, mas pensa em outras pessoas quando te beija, ou masturba-se a imaginar sexo com o colega de trabalho. O que é isso? Acho que a traição é pura e exclusivamente uma quebra de confiança e um rasgo no contrato afetivo assumido sem notificação prévia de renegociação ou de denúncia de contrato.

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    1. Se uma pessoa se masturba um dia a pensar no Matt Boomer, porque estava excitado com isso, ou porque viu um filme porno, não me parece que se possa considerar uma traição. Claro, que se formos inflexível no conceito, sim, seria uma traição, mas não me parece comparável. Se te masturbas a pensar num amigo ou num colega de trabalho, julgo que também dependerá do fim da coisa. Embora reconheça que existe ai um sintoma e tem de ser analisado.

      E subscrevo o que escreves, nomeadamente que uma traição tem a ver com carácter, não está relacionado com a monogamia, e mais, não tem de ser efetivada através de contacto físico. Pode ser financeira, por exemplo. Teres contas escondidas onde vais colocando de parte, parte do dinheiro comum. Mais do que uma valente queca, uma traição é quando fazes algo, sem pensares na outra pessoa, se isso a vai magoar, melindrar, deixar desconfortável ou até doente. É quando decides algo de forma unilateral, sem pensar em consequências para os outros. Por exemplo, já fui muitas vezes traído em contexto profissional, e isso não diminui o impacto de cada vez que acontece. Porque também vou mudando o meu comportamento, de forma a evitar certas situações. E a motivação vai surgindo cada vez mais com mais força.

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    2. a traição acontece à confiança. é mesmo isso. tudo o resto são veículos, seja sexual, financeiro, afetivo, profissional, etc.

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    3. *desmotivação

      Sim, é isso. É não estar à altura da confiança que damos. Até porque sabemos, que para confiarmos em alguém, temos de estar vulneráveis e não saber dar valor a isso, demonstra uma incapacidade de estar com pessoas. A nossa vulnerabilidade não é para qualquer um, nem existe a qualquer preço.

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    4. Há que ser muito tonto, realmente. Como é que a monogamia não haveria de ser “historicamente” uma construção heterossexual, se a homossexualidade era perseguida, se dois homens e duas mulheres, se quisessem ter qualquer tipo de relação, tinham de o fazer às escondidas de todos? É uma falácia total, uma deturpação de toda a ordem. Os homossexuais são tão ou tão pouco monogâmicos como os heterossexuais. A questão é que só há relativamente pouco tempo pudemos ter relações normais, sem medo da perseguição social e legal, inclusive. E isto nas sociedades ocidentais.

      Reduzir o casamento a uma invenção para proteger património e subjugar mulheres é uma simplificação histórica. É verdade que, em certos contextos e sobretudo nas elites, teve função patrimonial e esteve inserido em sistemas patriarcais. Mas o casamento existe em praticamente todas as culturas, incluindo sociedades sem “grande capital”, e cumpriu múltiplas funções sociais. Além disso, as instituições evoluem: o casamento contemporâneo não é juridicamente o mesmo que foi há séculos. Usar a origem histórica para fixar o significado actual é uma leitura incompleta, redutora e claramente com viés político e ideológico.

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