segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

noites de antigamente

Aqui estou eu, depois do jantar, na blogosfera. Neste mundo virtual, moribundo, mas onde tantas vidas de cruzaram, mesmo sem o saber. Claro que "isto" já não é o que era. Já quase ninguém lê blogues, ou os escreve, e muitos, que o faziam, migraram primeiro para o Facebook, depois Instagram e acabaram no TikTok. Sinais dos tempos dirão alguns. Outros, velhos do Restelo, apenas dirão que antigamente é que era bom. Talvez fosse. Ou talvez não. Mas a ideia que sempre tive, sobre os blogues e a blogosfera, é que aqui podíamos ser autênticos. Que poderíamos conhecer pessoas que nos queriam conhecer intimamente, sem nos avaliar e rejeitar pelo nosso físico. Podíamos apenas ser, estar e sentir, sem julgamentos. Era, talvez, uma ideia bonita de toque de almas. 

É claro que guardo boas memórias disto tudo, tenho saudades de algumas pessoas e de algumas dinâmicas. Aliás, quando comecei com o meu primeiro blogue, "Entre Evas e Serpentes", tinha a ideia parva, que alguém ia ler-me, conhecer-me, gostar de mim por aquilo que conhecia no virtual, e depois ao vivo, os dois iriamos construir algo. Talvez a referência virtual do "cavaleiro no cavalo branco". Obviamente que isso nunca aconteceu, e nos projetos subsequentes, eu já estava num relacionamento, pelo que não fazia sentido nenhum para mim, conhecer quem quer se fosse. Muito menos numa vertente mais romântica da coisa. Daí, as recusas a convites que foram feitos ao longo do tempo. Sempre quis evitar segundas interpretações, e mais do que isso, queria ser honesto comigo e com a pessoa com quem namorava. 

E hoje, estou aqui a escrever antes de ir dormir, nem sei bem o porquê. Não sinto uma vontade extrema de desabafar ou chorar, "apenas" quero estar. Como se estivesse nos bons velhos tempos, e tivesse recuado cronologicamente, através de uma qualquer máquina para o efeito. A verdade, é que estar aqui, faz-me regredir 14 anos na minha presença virtual. Neste blogue, que criei em 2012, para ser eu próprio. Sem culpas. Sem ter de olhar por cima do ombro, com o pânico que descobrissem que era/sou gay. Depois, do que se passou daí para a frente, foi um carrossel de eventos, que me estimularam a fazer mais. A escrever mais. A partilhar mais. A dinamizar mais. Eu estava entre iguais. No meu safe spot, mesmo que não conhecesse as pessoas ao vivo. Mas sabia que eram reais. E no fim, era a minha forma de ser gay, ou se preferirem, conseguir ser autêntico. Ou mais autêntico.  

Recebi centenas de mensagens durante o "período de ouro" deste blogue. E acho, mas corrijam-me se estiver equivocado, nunca me comportei como uma diva. Nunca quis ser famoso com este projeto ou ganhar dinheiro com ele. Queria apenas mostrar-me com o mínimo de filtros possível. E de alguma maneira, ajudar outras pessoas que estivessem a passar pelos mesmos problemas do que eu, ou inspirar a fazer diferente. Mesmo passados estes anos todos, há mensagens que me ficaram gravadas na memória. De pessoas que vivam longe, bem no interior, e me diziam que as partilhas, da minha vida quotidiana em Lisboa, as faziam, de certa forma, viver, uma vez que onde habitavam era tudo muito mais escondido, pacato e diferente. E um homem de 34, 35 e 36 anos a ler este tipo de contactos, sentia que de alguma forma ajudava os outros. E eu, que sempre fui mais um "helper" anónimo, do que alguém que procura o protagonismo, sentia-me realizado.

Mas como em tudo na vida, as coisas acabam por ir perdendo o sentido. A sua essência, vá. E aquela busca por saber quem eu era, acabou por me amedrontar. Cobarde fui, confesso. E comecei a desligar. Aliás, já escrevi tanto sobre isso por aqui, que acabo por me repetir de tempos em tempos. Mas não é isso que a velhice nos traz? Recordar tudo o que vivemos, para não o esquecermos? Sim, sempre tive um problema com a idade. E como diz a minha terapeuta, eu sou um homem mentalmente velho. Talvez seja. Talvez o tenha sido sempre. E não é pelos meus amigos me dizerem que estou na minha melhor forma física de sempre (também 7 dias de ginásio por semana, têm de mostrar alguma coisa), e eu gostar de me ver nu, que não consigo desligar-me da idade que tenho. Do tempo que perdi e das coisas que poderia ter feito diferente. Mas lá está, nunca sabemos o dia de amanhã, não é verdade? 

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