Já não vejo reality shows faz tempo e não estou a acompanhar nenhum de momento. Contudo, nas minhas redes sociais (Facebook, Instagram e X) não se fala de outra coisa e anda tudo um bocado histérico a comentar as ações e reações dos intervenientes.
Para que exista contexto sobre o que escrevo, estou a referir-me a um programa, que tem como nome "Casa dos Segredos" (TVI, Portugal), onde os concorrentes entram para uma casa, sem contactos com o exterior, levando consigo um segredo que os outros têm de tentar adivinhar para ganhar dinheiro. Ou seja é um "Big Brother" com segredos, vá.
Entraram na edição que se encontra no ar, como participantes, um casal, a Eva (22 anos) e o Diogo (25 anos), cujo segredo era esse mesmo, ou seja, "somos um casal". Daí, começaram a fazer cenas que não os denunciassem, e o rapaz, sempre na lógica "tudo na brincadeira", envolveu-se (romanticamente, sexualmente, etc.) com uma rapariga chamada Ariana, sem a mínima preocupação com os sentimentos da namorada "porque era um jogo". A cena escalou, o segredo rebentou, a Eva chorou, a Ariana sentiu-se traída e o João acabou o namoro em direto. Sempre com a ressalva que "talvez um dia, a soubesse amar, como ela (a Eva) merecia". A rejeitada não consegue abrir mão do ex-namorado, arranja todas as desculpas (e mais algumas) para justificar/perdoar o comportamento dele, que "não quer ficar sem ele", e as redes sociais, ao rubro, a dizerem que ela é uma tótó, com muita falta de amor-próprio e ele, um grande filho da mãe.
Bom, eu acho que é muito fácil de criticarmos os outros, quando não estamos nas situações. Parece-me que a miúda, nitidamente, não estará bem psicologicamente, não só, porque deve ter sido o seu primeiro grande amor, mas também, porque foi tudo assim... de repente e com milhões de pessoas a assistir. Claro que quem critica a dependência emocional de uma pessoa sobre outra, não sabe o que está por detrás. As manipulações, a violência psicológica (e em muitos casos, física), que levam a que uma pessoa "tenha medo de abrir mão" de um relacionamento que considerava o "tal", mesmo que anos mais tarde veja o quão errado era.
Um relacionamento tóxico, nunca é visto como tal, por quem está dentro dele. Porque umas vezes desvalorizamos uns berros em frente ao nosso grupo de amigos íntimos, porque "ele estava num dia mau", ou aceitamos uns olhares e uns sorrisinhos ao empregado jeitoso, "porque olhar não tem mal". Noutras alturas, queremos sexo, e tal não acontece porque a outra pessoa "tem problemas lá no trabalho e não está com a cabeça para isso", e aceitamos (porque não pode ser sempre sobre a nossa vontade) mas depois, soltam-se umas frases desalinhadas nos jantares de grupo, como se tivessem pinado no dia anterior (e eventualmente até o fizeram, mas não com a pessoa com quem tinham um relacionamento). Conseguem-se arranjar desculpas para todos os comportamentos, e por exemplo, o sexo escondido com outros intervenientes "foi só sexo" ou só aconteceu, porque as "pessoas não são, ou não quiserem, ser modernas".
Quem existe numa relação desta índole, chega a um ponto onde a estranha, obviamente, mas começa a considerar uma certa normalidade nestas atitudes, como se fosse um mecanismo de autodefesa, para tentar evitar uma situação de paranoia ou de ciúme doentio, porque no final de contas "vai estar sempre a exagerar e a ver coisas onde elas não existem". Adicionalmente, em relacionamentos com muitos anos, fica sempre aquele "bichinho" de "vou colocar tudo em causa, porque desconfio de alguma coisa ou me tratam mal de vez em quando?".
A verdade, é que vamos aceitando os amuos, as faltas de consideração, a má educação, a ausência e os maus tratos, como uma coisa natural, porque hoje foi um dia mau, mas amanhã será diferente. E eventualmente até será, mas nos dias seguintes, o mesmo comportamento voltará, e às vezes, com mais força, mais desprezo e mais manipulações de situações onde se consegue aplicar a inversão dos intervenientes, de forma a deixar quem é manipulado, desarmado e com problemas de consciência - quando não os devia de ter. E quem vive uma relação desta índole, nunca se apercebe que tudo isto não é normal, saudável ou viável, porque não consegue ter o discernimento necessário para terminar uma relação ou dar um passo para o lado para respirar e ganhar consciência de onde está.
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