sexta-feira, 6 de março de 2026

perdas

Mentalmente, acho que sempre fui mais velho, do que a idade fisiológica que apresentava/apresenta. Aliás, já a minha terapeuta me diz algumas vezes, que tenho "alma de idoso"

Lembro-me perfeitamente, quando estava no sétimo ano e tivemos um visita de estudo a Mérida, enquanto os rapazes da minha turma andavam atrás das raparigas feitos parvos (o que era normal, porque estávamos na fase tótó da adolescência), eu estava sentado na relva olhar para o rio. Não me lembro nada do que estava a pensar na altura, mas como nessa altura, ainda hoje, às vezes, saio do meu corpo e viajo por aí. Porque penso muitas vezes no mundo, nas pessoas e no sentido que isto tudo terá, ou não terá, para cada um de nós. Bom, mas lá estava eu sentado a olhar o rio, a ponte romana, e vejo a minha professora de História a caminhar na minha direção. Quando chega diz "aqui está o nosso filósofo a contemplar o rio e a pensar na vida". Ela foi uma das primeiras pessoas a "ver-me", muito antes de eu próprio me conseguir entender. E acho que sempre fui um pouco assim, "pensador", e talvez por ter sido um pouco assim, nunca tenha encontrado o meu lugar no mundo. 

Não sei. Sinto-me sempre deslocado em relação à vida. Às vezes penso, se a minha existência será mesmo esta, ou se estarei eventualmente a sonhar, e acordarei mais tarde, ou mais cedo, para a realidade. Seja ela qual for. A verdade, é que até aos meus 20 anos, sempre vivi um bocado despreocupado com as coisas, no sentido que eu nunca tinha perdido, ou nunca tinha tido perdas, assinaláveis. Ou melhor, a minha primeira grande perda foi aos 15 anos. A minha avó paterna. Foi alguém que ajudou a cuidar de mim até aos 6 anos, e apesar de gostar dela, deixámos de ter um contacto assim muito próximo com o tempo - ela dedicou-se mais às minhas primas. Portanto, foi uma ausência sentida, mas não foi um buraco no coração, irresolúvel. Não sei explicar bem. 

Já em 2021, morre a minha bisavó. Essa sim, o meu grande referencial. Pela história de vida. Pela luta. Pelo preconceito da sociedade, por ter sido mãe solteira. Por me ter criado desde que nasci. Pelo carinho que me deu e que nunca teve medo de o demonstrar. Pelo orgulho que nunca escondeu ter, por ser bisneto dela. Quando "for grande", quero ser como ela, ter a coragem dela, e talvez deixe de ser o cobarde que sou. Aqui sim, senti que qualquer coisa mudou. Que a dor ficou e nunca mais foi embora. Que apesar de ser algo natural (já tinha mais de 100 anos), e portanto inevitável, o meu cérebro teve dificuldade em processar. 

Em 2007 morre meu avô materno, com quem não tive oportunidade de fazer as pazes, uma vez que estávamos chateados por merdas familiares. Tendo-se passado o mesmo com a minha avó, sua mulher, que morreu no ano seguinte - e cujo funeral não compareci, porque estava no estrangeiro (já escrevi sobre isso no blogue). 

Portanto, as minhas grandes perdas, de pessoas próximas, começaram em 1996, e depois, tudo muito junto e de repente - em 2001, 2007 e 2008. Aqui chegados, era normal que o meu mundo tivesse mudado. O mundo afetivo, o familiar alterou. Nunca mais fui o mesmo, mas tive sempre esperança no futuro, que iria conseguir construir a minha própria família e que juntos podíamos conquistar o mundo. 

Entretanto, antes de entrar a pandemia em cena, no final de 2019, morre um dos meus melhores amigos. Fui sozinho ao funeral. Chorei sozinho. Estive sozinho, em todos os momentos. Aliás, como estive sempre desde que nasci, vendo bem as coisas. Este desaparecimento chocou-me e mudou-me para o resto da minha vida. Além de ser uma morte inexplicável, é algo que não faz ainda sentido. Marcou-me e continua a marcar-me todos os dias. Todos os dias, falo dele, e da falta que me faz. Tínhamos um dia de diferença, a mesma idade, mas um dia de diferença, e isso garantia-nos uma ligação quase kármica. Mas de repente, ele morre. Desaparece. E com isso, a pessoa com quem eu mais falava e que sabia muita coisa sobre mim (incluindo alguns dos meus segredos mais obscuros). Ele era aquela pessoa que, podíamos estar muito tempo sem nos vermos, mas quando estávamos juntos, era como se tivéssemos deixado de falar apenas a algumas horas atrás. Às vezes, replicando o comportamento daquela tarde em Mérida, a olhar o rio e a ponte romana, penso no que ele me diria, que conselho me daria, se teria orgulho em mim, ou se apenas me alertava com um "eu bem te avisei". É um exercício martirizante, porque nunca o vou saber ou ter certeza, mas a verdade é que de todas as perdas, esta, é aquela que me faz efetivamente falta, hoje. 

Contudo, de forma a minimizar a dor que tenho, das perdas que sofri, costumo pensar, que se me acontecer alguma coisa, se morrer, já terei alguém do lado de lá (se é que existe alguma coisa do lado lá) para me abraçar. Agarrar e não me largar. Sim, porque na maioria das vezes, estamos rodeados de muita gente, mas completamente sozinhos, não é? Existe "silêncio e tanta gente", como refere o título da canção da Maria Guinot, que estou a ouvir na voz da Milhanas. E por vezes, às vezes, parece ser tudo tão simples, não é? Bastava apenas um "troco a minha vida por um dia de ilusão".

4 comentários:

  1. Então agora imagina eu, que perdi a minha mãe em 2022, a minha avó paterna em 2022 (também), o meu pai em 2023, um tio também em 2023, e a minha avó materna em 2025. Além disso, o meu cão, também em 2022, entre a minha mãe e a minha avó, e poucos dias antes a minha tartaruga, que estava comigo há 27 anos.

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    1. E por mais preparados que estejamos para essa realidade, custa sempre. Mesmo em relação a pessoas com quem estávamos afastados. E quando acontece assim, como no teu caso, numa avalanche, e num espaço de tempo tão curto, ainda deixa mais marcas.

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  2. Mortes importantes, perdi o meu avô em 1981 (com 7 anos), perdi o meu pau em 1998 (24 anos), perdi um amiga em 2024 (50 anos). A do meu avô magoou porque era uma criança, a do meu pai reformulou a minha vida completamente (eu era um miúdo tímido e sem autoestima e procurei se o que ele me disse para ser entes de morrer, e consegui acho). A morte do meu pai fez-me conviver bem com a ideia da morte, assim que esse luto se concretizou, percebi o quanto do outro vive em nós e que não acaba. A morte da minha amiga foi triste, mas é como se ela estivesse viva também. E nunca estou sozinho, mesmo quando não há ninguém à volta, estou comigo. Há momentos de maior fragilidade e momentos em que nos sentimos invencíveis, mas em termos médios só sei que a vida é boa.

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    1. Mas por mais que consigamos fazer o luto, uns melhor outros pior, esses desaparecimentos deixam sempre marca. E às vezes parece que conseguimos formatar tudo, e fazer as pazes com esses factos, mas depois acontece alguma coisa que nos volta a trazer tudo o que pensámos ter resolvido, e muitas das vezes, de uma forma mais intensa.

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