sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

declaração de voto

Podem dar as cambalhotas que quiserem, mas uma coisa nada tem a ver com outra coisa. Seguro não é Ventura, e um democrata não é um autocrata. Portanto tenho alguma dificuldade em perceber alguns liberais, quando manifestam dúvidas sobre onde deve recair o seu voto, a não ser, que perfilhem também, as ideias absolutistas dos salvadores da pátria e de "quartos pastorinhos" de Fátima. 

Claro que muitos têm opiniões diferentes sobre este assunto, e algumas a roçar o insulto pessoal, mas acreditem que viver em liberdade total, onde possamos ser nós próprios, é algo que não tem preço. Portanto, e embora torça um pouco o nariz a gays de direita, não consigo mesmo perceber gays de extrema-direita, quando a génese dessa "matriz ideológica", os considera aberrações e não conta com eles para a formalização da sociedade ideal, que tanto querem construir. 

Também considero, que o centro-esquerda (português e mundial) perdeu o foco no essencial, e permitiu-se a assuntos menores, que apesar de terem importância nalguns casos, não devem ser tratados como causas absolutas. Mas sobre isso, falaremos noutra altura, que não esta. 

Sedentos de poder e de ódio, a cartilha da extrema-direita tem vindo a afinar-se de dia para dia, levando a que muitos considerem que esta é solução - bem sei, porque tenho familiares diretos, que dizem "que ele até diz umas verdades" e que isto "precisa de um abanão". Mas não é. E a realidade dos nossos dias, vai comprovando isso. A diferença, é que temos de dar oportunidade ao tempo, de mostrar a todos e a todas, o que é efetivamente aquele projeto é. E para não cansar muito, a quem por aqui se encontra a ler este texto, vou apenas deixar ficar cinco breves considerações, que são facilmente desmontadas, por quem se permitir pensar um bocadinho

1. Foram 50 anos de corrupção. 

Bom, na prática foram 50 anos de liberdade coletiva e individual, desenvolvimento económico e de aproximação aos países mais desenvolvidos da União Europeia. Se existem casos de corrupção? Óbvio. Também os existiam no tempo do Senhor Salazar. A grande diferença é que nas democracias evoluídas, isso pode ser combatido, num regime autoritário não. Para além disso, é de entender que o André Ventura, militou num dos "partidos do sistema" 18 anos, e enquanto profissional ajudou muitas empresas a evitar o pagamento de impostos. Aliás, já começam a aparecer casos de corrupção dentro do partido Chega, que serão maiores, quanto maior foro crescimento deste. 

2. O PSD é o PS2

Não são. São diferentes e defendem posições distintas em muitas matérias, por exemplo no casamento de pessoas LGBTI+. Claro que têm posições convergentes, porque ambos se inspiram na matriz da social-democracia europeia, e disputam eleitorado no centro político, onde a maioria das pessoas se define e situa. Estes partidos, embora se assumam pela integração europeia, não concordam com o peso do Estado deve ter na economia, nos direitos laborais ou no Serviço Nacional de Saúde. Portanto, é só desonesta esta comparação, cujo objetivo é apenas enganar as pessoas. 

3. O PS é o partido dos pedófilos 

O Partido Socialista é um dos maiores partidos da democracia portuguesa. Portanto, tem muita gente e é muita gente. Não são todos iguais e não são todos pedófilos. Aliás, se a pedofilia fosse sinónimo exclusivo de um partido político, estávamos nós bem, porque sabíamos como combater este flagelo. Mas as coisas não funcionam assim, e não basta "ter a cara de pedófilo". Tanto assim não é, que o partido Chega, que enche a boca para fazer estas acusações, já tem alguns casos relacionados. E mais terá, quando maior for o seu crescimento, porque isso não é condição exclusiva de "esquerda". Ballet Rose, diz-vos alguma coisa? Não? Um dos maiores escândalos de pedofilia do tempo do Senhor Salazar, e que ao contrário do caso Casa Pia, nunca foi escortinado, investigado ou chegou ao conhecimento da maioria da população daquele tempo.  

4. Foram 50 anos de Socialismo e de pobreza 

Foda-se, não posso crer que a malta seja assim tão burra. Depois do 25 de abril de 1974, Portugal nunca foi um regime socialista. Foi sempre dominado por políticas da social-democracia europeia, ora mais à esquerda, ora mais à direita, permitindo a muitas pessoas subir no tão famoso "elevador-social" - que os liberais adoram berrar, para conquistar votos. Permitiu que estudássemos, e não ficássemos apenas com a 4.ª classe, como os nossos avós e pais. Permitiu-nos ir de férias, poupar dinheiro e não ficar vinculados a um extrato social desde o momento do nosso nascimento. Por exemplo, tendo eu nascido em 1980, muitos miúdos da minha geração, (mais) a norte do país, enquanto em brincava na rua, muitos deles trabalhavam nas fábricas com os pais. Ainda assim, estes 50 anos de democracia permitiram combater o trabalho infantil e conquistar para os nossos miúdos, uma infância mais feliz, mais sonhadora e plena, Se há injustiças? Claro que sim. Se há pessoas com cursos superiores a fazer trabalhos pouco qualificados e a ganhar uma miséria? Sim, há. Há muita coisa, e ainda muita miséria para eliminar, mas não é a voltar atrás que isso se resolve. Muito pelo contrário, é no futuro que reside a possibilidade de fazer mais e melhor.  

5. Antigamente é que era bom e havia mais respeito 

Exato. Era bom e havia mais respeito. E medo. E prisões por opiniões políticas. E mortes só porque sim. As mulheres dependiam de autorizações do marido para certas situações corriqueiras, os gays tinham que viver escondidos, porque eram "aberrações sociais". Não haviam cá direitos laborais generalizados e fome, era o prato do dia para muitos (por exemplo, para o meu pai). E tenham noção de uma coisa, muitos portugueses morreram para que eu pudesse escrever este texto, ou as vossas parvoíces nas mais diversas redes sociais, e não reconhecer isso, além de profunda ingratidão, manifesta que não se preza o valor da liberdade. O de cada um e o de todos nós, enquanto coletivo.  

E finalmente, deixo ficar aqui um bónus: além de Portugal nunca ser sido uma república socialista, nunca foi governado pela extrema-esquerda. Dizer o contrário é apenas má-fé. 


E termino este longo tratado, com o seguinte pensamento: no domingo, para quem gosta de viver em democracia, o voto terá que ser exercido de forma a salvá-la. Ela é imperfeita, bem sei, mas é o único instrumento que nos permite escrever os dislates que quisermos (nos nossos blogues, por exemplo) e ter uma cena básica, que é ter uma opinião (sobre tudo e sobre nada). Não ter a consciência de ter um voto SEGURO na democracia, é lavar as mãos das consequências que daí possam advir. 

2 comentários:

  1. Fico perfeitamente abismado como alguém de direita (que não seja extremista ou populista) possa considerar André Ventura para Presidente. O Seguro dentro do PS até está bastante à direita e como bem dizes é um democrata.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Entre a democracia e o caos, bom, não há muito a escolher.

      Eliminar

Este blogue não é uma democracia e eu sou um ditador'zinho... pelo que não garanto que o comentário seja publicado. Mas quem não arrisca...